4 e 20 canadense, câimbra na teta e atuação estatal

20140420-590420-25Neste domingo, 20 de abril, uma multidão[zinha] reuniu-se em uma das principais praças de Toronto, Dundas Square, a Time Square canadense, para celebrar a data 20th 4 (abril) e pedir a legalização da erva proibida de Leonardo da Vinte, maior maconheiro da história segundo Bezerra da Silva – que vem logo após, em segundo lugar, seguido de Gilberto Gil e o pessoal da Tropicália. Eu, no ócio como sempre, mesmo não sendo um usuário assíduo da marvada fui lá conferir, e, a bem da verdade, fui esperando uma eventual confusão entre polícia e civis, na esperança de matar a saudade dos jogos da Ponte no Majestoso, o Estádio de onde não se tem “jeito de correr, e vai morrer”.

Conhecido mundo à fora pela qualidade de sua erva, o Canadá tem sim uma atitude mais progressista em relação à Mari que a que temos no Brasil. Entretanto, diferente do que muitos pensam, a posse de maconha aqui é ilegal, indiferente da quantidade portada, variando apenas a pena de acordo com o montante (até aí, adicionando à abordagem policial uns tabefes e impropérios a mais, tudo igual).

Enfim, a despeito de leis, ao que parece, domingo legalizaram a cidade. Com poucos policiais ao redor da praça, o evento reuniu gente de todo tipo, de rastas e leitores de Osho que vivem nas montanhas, a sauditas com relógios de ouro que por pouco não deslocam o ombro e etiquetas ainda anexadas a todas as peças de roupa, do boné às botas Timberland. E, guess what? tudo ocorreu às mil maravilhas.

Bom, quase tudo: coube a mim presenciar a primeira overdose de maconha da história. Lá estava eu, olhando para o palco e curtindo o discurso não tão inflamado de um dos organizadores, que já devia estar na passadeira e falava em um ritmo nada empolgante, enquanto bebia um chá verde recém-adquirido, quentinho, com 2 sachês para uma melhor experiência, quando um careca de 100 kg que se encontrava prostrado em minha frente se sentiu ofendido com meu chá, que obviamente não era de cogumelo, como denunciava o copo do Starbucks, e resolveu vir ao chão em cima de mim, outro careca de 100 kg (84 agora, mas manterei os 100 em prol da narrativa), não se dando o trabalho sequer de tirar as mãos do bolso antes de desmaiar. Primeiro ele derrubou meu chá, o que não foi justo, e, em seguida, ainda em choque pela perda do chá, tentei segurá-lo, o que me fez, em meu esforço celestial, ter câimbra na teta por causa da força aplicada naquele sacrifício heroico. Obviamente, de nada adiantou, uma vez que a gravidade, ignorando minha câimbra na teta, o levou ao chão de cabeça, o que fez um barulho expressivo – atribuo o fato à ausência de cabelos – e, por conseguinte, a um princípio de convulsão. Não se preocupem, caros leitores, que apesar de vil, nosso vilão logo se recuperou com a ajuda de amigos, tendo como castigo apenas chá quente espalhado por sua camisa, uma vez que ele caíra em cima do copo que derramara – lei da ação e reação, a física não perdoa. Eu quis chutá-lo pelo meu chá e pela câimbra, aproveitando seu momento de fraqueza, mas não o fiz, e hoje vejo que foi melhor assim. Enfim, esse parágrafo foi desnecessário (não mais que o resto do texto), mas como citei câimbra na teta no título, devia-lhes um parecer; em relação à overdose de maconha, pasmem… era mentira.

—Atenção, aqui acaba o relato e começa a parte [ainda] mais chata—

De volta ao ponto, que para ser sincero ainda não sei qual é, aquele evento mostrou uma postura das autoridades torontonianas (???) que me impressionou. Colocando de lado a discussão Legalização da Maconha, o fato é que o porte da dita cuja, aqui, é proibido, e mesmo sendo evidente que uma boa parte dos que faziam corpo ao evento portava uma quantidade relativamente expressiva, os policias que ali estavam, naquele específico dia, optaram pelo dar de ombros. O porquê disso, de onde veio a ordem ou se teve como base algum apêndice micro num código penal escrito em inglês – o que torna a leitura ainda mais maçante, por isso a referência –, eu não sei, não quero saber, e tenho raiva de quem sabe. O ponto que quero trazer aqui é outro: é a intervenção do Estado nos aspectos que circundam nosso dia-a-dia e a possibilidade de leis já estabelecidas sofrerem eventuais pausas em prol de um bom-senso que, correto ou não, torna a Justiça e o Estado de Direito mais flexíveis. De um viés teórico, o primeiro e o segundo pontos estão conectados desde o nascimento; pelo menos assim deveriam estar, uma vez que um deve se amparar no outro.

Apesar de ser uma economia de mercado e ter uma sociedade visivelmente consumista, o Canadá é, em diversos aspectos, um país com um Estuado atuante e programas sociais que, apesar de suas limitações, atendem bem a população no geral. Como exemplo temos o sistema de saúde público, gratuito para cidadãos canadenses – diferente dos primos ianques –, leis trabalhistas rígidas (digo isso com uma conotação positiva; uma interpretação diferente é fruto exclusivamente do seu entendimento e visão de mundo) e restrições a certas liberdades pessoais que, doa em quem doer, visam o benefício do coletivo. Um exemplo de tais restrições é o consumo de álcool, proibido em espaços públicos, restrito mesmo a estabelecimentos privados a até as 2 (ou 3) da manhã e tendo a venda de bebidas alcóolicas realizada apenas em lojas estatais, os LCBOs – com exceção de cerveja, que também pode ser adquirida nas Beer Stores –, que fecham as portas geralmente às 21h00. Soma-se a isso o fato de que para se trabalhar em um bar ou restaurante que sirva bebidas alcóolicas é necessária a obtenção de uma licença, Smart Serve, emitida após algumas maçantes horas de treinamento online, seguidas de um teste também online, com um funcionário terceirizado lhe observando pela webcam. Enfim, é mais fácil vender crack na porta de escolas que uma cerveja light horrível a um grupo de amigos antes de um emocionante (risos) jogo de baseball.

Até aí, e o Kiko? O Kiko é que, do meu modo de ver, diferente do que pregam os miguxos neo-liberais (que não comem ninguém, como comprova Pondé), um Estado atuante e presente é necessário para a manutenção do bem-estar social, princípio básico da vida em sociedade, por mais cristão e conservador que possa soar. A quantidade de acidentes de trânsito causados pelo consumo de bebida alcóolica aqui é ridiculamente inferior à do Brasil; desde que cheguei aqui, neste frio do Capiroto, não vi sequer uma briga em bar ou boate, apenas um ou outro empurra-empurra que, para a minha tristeza, não deram em nada. Não por coincidência, o transporte público para de funcionar aproximadamente no mesmo horário que os estabelecimentos devem parar de servir bebidas alcóolicas, evitando os prováveis campeonatos de drift na neve que aconteceriam caso geral voltasse dirigindo (como faço e continuarei fazendo no Brasil, porque hipocrisia é uma arte =] ). Não lhe privam do seu direito de beber e sair para se divertir, porém lhe restringem, o quê, de fato, é um saco, mas prova através de resultados muitos de seus pontos. Com a maconha, se a legalização vier – e cedo ou tarde virá –, não será diferente. Se discutimos, dia após dia e mais e mais, a necessidade de um Estado tão presente em nosso cotidiano, esquecemo-nos de um ponto importante, ao atribuirmos todo o fardo a essa força intocável e malévola chamada Estado e isentarmo-nos de deveres e obrigações enquanto membros de uma sociedade – como parar de beber às 2 da manhã para pegar o ônibus, para exemplificar de uma maneira estúpida, mas clara.

Em contrapartida, devemos lembrar que o Estado não é algo estático, nem em prática nem em teoria, e este vem evoluindo desde seu surgimento. Pregar a sua extinção é entender que o mesmo atingiu seu ápice e falhou, enquanto a percepção de que ele está em evolução contínua contribuí para o avanço não só da sociedade, mas de seus direitos enquanto indivíduo, uma vez que, a despeito do sentimento que hoje predomina em muitos, Estado, Sociedade e Indivíduo não só coexistem, mas dependem um do outro de maneira vital. Cabe a nós, enquanto indivíduos, entender que o Estado somos nós, e devemos sim continuar lhe cobrando a perfeição, sem abusos ou excessos de poder. Isentar-se de responsabilidade para com ele e com aqueles à sua volta implicará apenas em medidas mais e mais austeras e a brechas para os tão revoltantes abusos de sua parte.

Substituindo a palavra Partido por Estado, finalizo com Brecht. Passem bem.

Mas Quem é o Partido?

Mas quem é o partido?
Ele fica sentado em uma casa com telefones?
Seus pensamentos são secretos, suas decisões
desconhecidas?
Quem é ele?

Nós somos ele.
Você, eu, vocês – nós todos.
… Ele veste sua roupa, camarada, e pensa com a sua cabeça
Onde moro é a casa dele, e quando você é atacado
ele luta.
Mostre-nos o caminho que devemos seguir, e nós
O seguiremos como você, mas
Não siga sem nós o caminho correto
Ele é sem nós
O mais errado.
Não se afaste de nós!
Podemos errar, e você pode ter razão, portanto
Não se afaste de nós!

Que caminho curto é melhor que o longo, ninguém
nega
Mas quando alguém conhece
E não é capaz de mostrá-lo a nós, de que nos serve
sua sabedoria?
Seja sábio conosco!
Não se afaste de nós!

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