O choro escuro já não machuca.

Esse texto não tem qualquer intenção que não a de botar pra fora um sentimento que deitava ao meu lado ontem, enquanto tentava dormir. Nada além de um desabafo por conta das notícias da guerra que se inicia – e que continua e que jamais terminou. O luto por Paris ainda é grande; mas impossível não pensar no sofrido povo Sírio, nada quisto em lugar algum, acuado em sua própria terra, esperando pra ver de qual lado vem o algoz – certo apenas de que ele vem.

O choro escuro já não machuca.

Não adianta… Há esforço, isso há, mas o choro escuro já não machuca. Deixou de machucar há tempos. De pequeno machucava. De pequeno machucava igual. Mas a gente cresce e o daltonismo da alma se esvai. Não por vontade própria, mas se esvai.

Seleciona-se o choro que dói. O de alguns dói menos; o meu, é o que dói mais. Mas o negro… ah, o negro não dói.

Uma criança entre bombas, de bochechas cinzentas da cinza das bombas, tapando as rosadas bochechas de flor. Não chore, criança… não chore. Não porque vai passar, mas porque não há colo de amparo. Não pra você, criança escura. Não chore, criança, porque o ombro adulto, ossudo, desnutrido, angular que te ampara, de nada resolve esse pranto que cai.

Não chore, criança, porque ninguém liga… a verdade é que ninguém liga. Ninguém liga pra você, criança escura de nenhum bem, nenhum dote, nenhum visto, Visa, vida sequer. Nada, criança chorona.

O homem da TV que tem quase a mesma cor fala bem, promete amparo, uma casa aquecida e uma tigela de sopa de letrinhas. Não fosse ele o motorista dos aviões desalmados, robóticos, sem alma e sem nada, as coisas estariam melhor, talvez alguém ouvisse esse pranto. Mas não, minha criança. Os aviões estão vazios de humanos, e os lugares vazios de humanos não ouvem choro de crianças tolas como você. Os lugares vazios de humanos ouvem ordens, ouvem alvos, ouvem palavras precisas, sucintas, eficazes… pra calar choro de criança tola.

Você errou, criança tola. Pra quê raios foi nascer aí? Hein, criança burra? Por que motivos escolheu aí, logo aí? Criança parva você é, criança. Não há lugar no mundo pra criança igual você.

Ô minha criança, não chore não; não diga que não foi você, que a culpa não é sua. Apontar o dedo é feio, criança; e, de qualquer modo, ninguém vai acreditar.

Engole o choro, minha criança. Engole o choro, prepara a alma e espera o baque.

O mar negro que une Cristo, Moisés e Maomé logo se acalma de novo, estático, domado, consensual. Reverbera umas poucas ondas um punhado que boia na água preta, afundando devagar, até sumir, o tal punhado, punhado de corpo frágil de criança escura.

 

Foto: Osman Sagirl
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