O Gordo Careca e as Eleições Presidenciais

Fulgencio e Bolsonaro

Em uma de minhas idas a São Paulo, ávido por um bastonete de nicotina, desci do ônibus recém estacionado no terminal e me dirigi à banca mais próxima, para comprar minha viciosa vitamina tabaquista. Entrando na banca, de cara fui surpreendido por certa hostilidade vinda do proprietário, um gordo careca, vestindo uma camiseta verde-musgo. À minha solicitação, Dunhill vermelho box, confirmei seu não interesse em atender-me; respondia devagar e com má vontade. Levantando o braço para alcançar o cigarro, entendi o porquê daquilo: brilhou em seu dedo um anel com a cruz de ferro, símbolo presente em medalhas militares que foi, inclusive, usada pelo terceiro reich alemão. Logo entendi o motivo da hostilidade, uma vez que eu vestia uma camiseta réplica do uniforme Soviético da Copa do Mundo de 1982. O gordo careca, decerto ficara ofendido, lembrando-se da frustrante campanha russa por parte de seus queridos nazi-lókis. Em seguida, lançou-me a pergunta, “Você é das Farc?”. E novamente, ao meu sinal de não compreensão, “Você é das farc?”

– As da Colômbia, você diz? – questionei.

– É, porque essa camiseta aí leva o símbolo das Farc – não levava; levava o escudo da federação soviética de futebol que, por sua vez, contém a foice e o martelo comunistas.

– Não, cara, não sou das Farcs. Sou esquerdista, e aficionado pela história da União Soviética (não usei o termo aficionado, claro, mas vale uma licença poética), mas não sou das Farcs.

– Mas não tem nada contra fascista, tem?

Aqui, eu poderia mentir, dizer-lhes que respondi que “sim, claro que tinha; como não ter algo contra uma ideologia retrógrada, ultrapassada, preconceituosa, não democrática, coercitiva e responsável pela morte de milhões de inocentes?”. Mas não, me acovardei, disse que acreditava que cada um tinha o direito de expressar sua opinião, contanto que respeitasse as diferenças e opiniões dos outros.

A resposta fê-lo relaxar um pouco os músculos faciais, e, continuando, disse-me que era militar, que seu avô havia pertencido a tal esquadrão, que lutara por Mussolini, que ele mesmo era fascista e umas groselhas mais, às quais já não dava atenção. E finalizou com, “mas você sabe que a guerra está próxima, né?”. A esta pergunta só consegui responder que a guerra era domingo e democraticamente (esse fato se deu dias antes do primeiro turno das eleições), que o tempo de matança havia passado, a humanidade evoluíra – ele balançava a cabeça negativamente.

– Eu tenho 75 cents aqui, pra facilitar o troco – foi minha última afirmação. Peguei meu troco e me mandei, meio assustado.

Se fui embora assustado, não fui por medo de represálias físicas, uma vez que ele estava em seu estabelecimento, aberto e no meio do terminal rodoviário – ele mesmo, na verdade, estava tranquilo, conversava numa boa, e eu, convenhamos, sou um exímio carateca, sanguinário guerreiro, criado nas pérfidas ruas do Jardim Cambuí 3, a quebrada das quebradas campinenses. Fui embora assustado por ter me deparado pela primeira vez com uma manifestação aberta de apoio a ideais fascistas e à repressão física fora do ambiente digital. Fui embora assustado pela afirmação “a guerra está próxima”, sendo que, não, não se travava de eleições democráticas, como as que temos, mas uma guerra física. Fui embora assustado por pensar que, no futuro, pulhas e mais pulhas que hoje se escondem por trás de redes sociais podem dar as caras, sair à rua pregando suas práticas coercitivas e preconceituosas, colocando em perigo a integridade de grupos minoritários e excluídos, colocando-nos goela abaixo, e à força, a tradicional família cristã, responsável, em sua história, por grandes barbáries.

E em meu caminho, prensado no metrô paulistano, fui pensando sobre o papel nosso, ditos esquerdistas, nas reações que, sim, estão por vir por parte dos setores conservadores da sociedade brasileira – inúmeros setores. Não acredito que uma guerra declarada, nos moldes antigos, esteja por vir; agora, negar a ascensão da áurea reacionária nacional, que estava a dormir, também não convém. Se Marina Silva clama pela despolarização, com sua anuviada “nova política”, fica claro que polarização mesmo será induzida pelo outro lado, o do gordo careca, que vê a possibilidade de confronto físico dentro em breve.

Conheço eleitores que estão em cima do muro, confusos, sem saber pra que lado correr ou em quem votar. Quanto a mim, não há dúvidas, sou Dilma desde o começo. O segundo turno, todavia, trouxe à tona questões curiosas sobre a personalidade da sociedade e dos cidadãos brasileiros, de modo que se é pra polarizar, então que se polarize:

Para um lado, foram Pastor Everaldo, Malafaia, Bolsonaro, Lobão, Roger – figuras conhecidas pelo discurso do ódio, por posicionarem-se contra direitos das minorias, como união civil entre pessoas do mesmo sexo e legalização das drogas, por serem a favor da redução da maioridade penal e do aumento da repressão policial. Também foi, para este lado, a grande mídia, o chamado PIG, setor tão criticado pelas massas nas manifestações do ano passado mas que, hoje, é a única fonte de informação dessa mesma massa. Em sua luta eleitoreira, empenha-se em convencer-nos de que a regulamentação da mídia é ruim, que afetaria a liberdade de expressão, mas sem mencionar que suas notícias dependem da verba publicitária das maiores instituições financeiras e que seu rabo, portanto, está preso, sendo ela mesma, a grande mídia, um condensado de oligopólios que, estando no poder, não tem o menor interesse em compartilhá-lo, em democratizá-lo.

No outro polo, mais à esquerda, é onde me encontro. Confesso que gostaria de estar mais à esquerda do que estou, e que não me sinto à vontade em dividir o lugar com muitos dos que cá se encontram, vide nosso vice-presidente, Maluf etc. Entretanto, avistando ao longe aquele polo à direita, sei que não tenho outro lugar para estar senão aqui. Eu mesmo, pouco importo, mas junto comigo estão figuras de peso, como Jean Wyllys, Chico Buarque, Eduardo Suplicy, Leonardo Boff; como o Pré-Sal, a Saída do Mapa da Fome da Onu, as Milhões e Milhões de Pessoas que Saíram da Miséria nos Últimos 12 Anos, a Valorização da Petrobrás, Empresa Mais Valiosa da América do Sul, o ProUni, o Ciências sem Fronteiras, a Alta Contínua do Salário Mínimo, os 10% de PIB para a Educação, Autonomia para a Polícia Federal, etc., etc., etc.

Se a “polarização” serviu para alguma coisa, foi para tirar máscaras de muitos. Serviu para evidenciar o preconceito daqueles que se julgam melhores, que escarram ofensas em Redes Sociais, mostrando seu lado sujo e preconceituoso, retrógrado. Ao gordo careca da tabacaria, só resta dizer: não, o Brasil também não está onde eu queria, mas com certeza caminha rumo a este lugar ideal de uma forma que não caminharia com você ao volante. Neste lugar, que um dia chegaremos, você, sombra de um passado ditatorial, você, homofóbico, você, que prega o ódio ao nordeste, à população mais pobre, a quem precisa sim de programas sociais por ter sido explorado em toda a história deste país, você que, em seu delírio podre, se sente de alguma forma superior, você não será bem-vindo.

Até lá, que se polarize. Meu lado já está definido.