Uns trocados a mais e foda-se a Feijoada!

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Em inúmeras vezes tive a oportunidade de conversar com amigos sobre nossa situação enquanto jovens de classe média, formados, vivendo temporariamente – e com consciência disso – no exterior e, em sua maioria, sem vislumbrar cenários magníficos em seus países natais.

Quanto aos jovens que aqui vejo, muitas vezes chego a me decepcionar. Alguns grandes talentos – às vezes não tão grandes, mas ainda assim verossímeis – abdicam de suas áreas para buscar um bom pagamento quinzenal no país do maple syrup. Agora eu lhe pergunto, trabalhar de garçom aqui ou trabalhar de garçom acolá, é assim tão diferente? Com exceção do salário, o que muda? Por que então deixar de vez a pátria mãe?

Uma passagem do livro Cem Anos de Solidão, de García Márquez, sempre me chamou muito a atenção, ao sugerir-nos que a felicidade plena encontra-se na vida daquele que o autor chama de alguém “sem guerra e sem glória, um artesão sem nome, um animal feliz”. Críticas literárias à parte, vejo aí um duelo entre pontos de vista que representa bem o que se passa na cabeça da geração que hoje, em teoria, ganha o mundo e se torna responsável por sua aparência futura.

É fato – ainda não consumado, deixemos claro – que em nossa criação fomos envoltos por uma bolha de elogios e dizeres de que a nós tudo é possível. Porém esqueceram-se de nos dizer, nesse mar de expectativas e afagos, que despensas não se enchem sozinhas, e que um dia iríamos ter de colocar a mão na massa. Será por isso, talvez, que hoje eclodem mundo à fora protestos e requerimentos (já não são pedidos) de jovens das mais diversas nacionalidades aos seus governos e sistemas que clamam por mudanças que, a bem da verdade, não são claras a ninguém? Não seriam esses requerimentos turvos e insatisfação com tudo e todos um reflexo de nossa frustração diante da triste verdade de que as portas não estão tão abertas quanto nos fora prometido?

Vejam bem, caríssimos, não estou eu querendo invalidar as lutas que hoje ganham voz e corpo, pois estas são legítimas e necessárias na maior parte dos aspectos que as cercam. O que quero aqui é incitar a autoanálise para que possamos exigir daqueles que nos devem – e sim, eles nos devem – mudanças claras e reais, evitando que nos tornemos, assim, meros peões em um tabuleiro complexo do qual jamais sairemos vencedores.

Não venho aqui apresentar respostas ou sugerir alternativas, pois não as tenho nem de longe. Venho apenas dizer algo que notei no tempo em que tenho passado fora do país, onde pude ver jovens insatisfeitos com sua terra natal justamente por lá não enxergarem futuros majestosos, mas, se não plenamente satisfeitos, mais e mais dispostos a aceitarem as oportunidades não tão exorbitantes que a eles são destinadas no exterior, de modo a admitirem aqui a vida de “animal feliz”, e enxergando nela uma possibilidade real de felicidade, mas atirando pedras nos seus conterrâneos que hoje estão no poder por lhe proporcionarem algo que é, se não a mesma coisa, muito similar ao que aqui lhe oferecem, só que em sua língua nativa.

É claro que o salário superior e as melhores condições de vida em alguns (alguns, deixemos isso bem claro) aspectos ajudam na hora da decisão, mas ainda assim, vejo nisso um conflito de nossa geração, a quem foram prometidas as glórias e conquistas do Coronel Aureliano Buendía, mas, pelo jeito, foi entregue o anonimato do Animal Feliz. Sair do país, no fim das contas, parece não mudar muito este fato.

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2 thoughts on “Uns trocados a mais e foda-se a Feijoada!

  1. Show, cara! Muito boa análise e boas referências. O que eu noto muito nos jovens de hoje e muito do que pude identificar nas pessoas que você descreveu é que, como fomos criados com a mentalidade: “Estude, pra virar gente, faça faculdade, inglês, MBA, tenha um bom emprego, tenha uma casa, tenha um bom salário, se case e viva feliz para sempre”, temos a ilusória sensação que a vida será um caminho sem baixos, só sucesso. E na prática não é bem por aí. Eu acho que esta mentalidade que nos é passada, cria pessoas frustradas, que trabalham por dinheiro e não por paixão. Fazem o que não gostam, aqui ou aí, só pela grana. E para eles, a diferença de valor entre nós daqui e vocês daí, faz toda a diferença, mas para mim, não faz o menor sentido. Abraços.

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